segunda-feira, 2 de março de 2015

Fôlego



Sinto muito, mas não posso parar de chorar. Eu gosto de me deliciar com esse choro sofrido que dilacera minha alma e amarrota meu rosto. Eu quero chorar! Quero chorar muito, até o dia acabar, até a noite partir, até o sol raiar...
Não vou me conformar nunca. Não sou conformista. O amor nunca morre, por isso, não se conforma. “A vida é assim” já diria o mundo inteiro. Mas, eu não me conformo. Não me conformo que meu avô vai partir pra bem longe, para aquele lugar distante, aquela incógnita ululante.
Eu estava tirando um cochilo quando de repente meus pais surgem pela porta. Minha mãe desnorteada não conseguia formular uma frase perfeita, meu pai até esquecera o lugar onde ficam as panelas. Começaram a fazer almoço, preparando, preparando, preparando... Até que, chegada a hora, minha mãe gritou:
- “Seu avô está morrendo, Karina.”.
Saí do quarto daquele jeito.
- “Como? Por quê? Quando?”.
Fiquei repetindo essas perguntas como um disco arranhado. E desabei num pranto profundo, numa escuridão tremenda, naquele buraco negro das histórias em quadrinhos, no zero grau absoluto do nosso planeta Terra. Agora entendo aquele sonho maluco que tive em que um homem me chama para entrar num buraco negro e profundo. Ele dizia que lá dentro havia outro mundo, cheio de paz e alegria. Mas, eu pagaria um preço por essa felicidade; nunca mais veria as pessoas que amo, nunca mais voltaria para a Terra. Agora o sonho passa a ter sentido, o sentido da morte.
Meu avô está em outra dimensão, não vê o presente, e o futuro é palavra que não existe mais no seu dicionário.
Da última vez que fui visita-lo, ele não disse olá, não me xingou e nem ao menos abriu os olhos. Imagino-o envolto numa fumaça nostálgica, viajando nos seus pensamentos. Queria tanto saber o que passa no seu filme de “flash back”. Minha mãe disse que ele está dormindo. Na verdade, ele está sonhando profundamente.
E aí, no seu sonho, a Morte chamou meu avô num canto e disse:
-“Arthur, vamos dar um passeio?”
Ele respondeu “sim” ao convite agradável da amiga Morte.
Enquanto isso, do lado de fora do sonho, aquela entidade de preto, virou um anjo de luz e sussurrou baixinho no ouvido de todos os familiares que estavam presentes no apartamento. Hipnoticamente, eles entraram no quarto e rodearam a alma em transe. Minha avó e os outros se instalaram nas várias cadeiras em volta da cama e sob efeito de uma misteriosa decisão, sem precisão de palavras, começaram a rezar o terço. Meu avô respirava ofegantemente, a dor da respiração era inevitável para aquela carcaça doente e quase inútil.
Ave Maria, cheia de graça... Pai Nosso que estais no céu... Santificado... Mistérios... Desceu à mansão dos mortos, ressuscitou ao terceiro dia... Salve Rainha... Misericórdia.
Um trovão estalou nos céus de Belo Horizonte. Ninguém teve medo. Meu avô parara de respirar ao ouvir a última oração. Seus olhos se fecharam suavemente e suas mãos expressivas descansaram para sempre.
Mas, para onde ele foi?
Para um lugar onde uma música suave é tocada por anjos e arcanjos, com flauta, trompete e arpa. O som de fadas voando vai ninar vô Arthur e ele dormirá como nunca dormiu antes em sua vida. E quando acordar ele caminhará por campos verdejantes. De uma montanha avistará um belo vale. Numa pedra (ou numa nuvem) ele passará um bom tempo apreciando aquele vale úmido e fresco por onde escorre o véu da querida Celme. Seus filhos serão as ovelhas pastando naquele paraíso infinito. Uma dessas ovelhas correrá até ele e lhe lamberá as mãos. Meu avô acariciará o pelo branco e macio do animal. Juntos eles começam outra jornada. Depois de muito caminhar, do alto de outra grande montanha, Arthur avistará um Pico.
- Oh, pico brilhante e pontudo, o que fazes de novo no meu caminho?
Num passe de mágica a ovelha se transforma num burro que levará meu avô para uma escalada. Eles vão subir, subir, subir... Mal sabe ele qual jóia irá coletar. Um rapaz de cabelos compridos e barba estará esperando de braços abertos e seu semblante é de pura felicidade.
- Pai!
-Meu filho!
Os dois se abraçarão. Até que a aventura da morte também pode ser compensadora! O filho de volta, a paz! Juntos eles passarão a eternidade. Terão muitos almoços com carne de porco e broto de samambaia, comerão e beberão a fartar. A comunicação fluirá através dos sentimentos, sem medo, sem preconceito ou ideologias humanas.
E Deus, na sua eterna sabedoria, preserva na Terra os passos do meu avô marcados na areia da vida.


Belo Horizonte, 23 de dezembro de 1996

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