Sinto muito, mas não posso parar de chorar. Eu gosto de
me deliciar com esse choro sofrido que dilacera minha alma e amarrota meu
rosto. Eu quero chorar! Quero chorar muito, até o dia acabar, até a noite
partir, até o sol raiar...
Não vou me conformar nunca. Não sou conformista. O amor
nunca morre, por isso, não se conforma. “A vida é assim” já diria o mundo
inteiro. Mas, eu não me conformo. Não me conformo que meu avô vai partir pra
bem longe, para aquele lugar distante, aquela incógnita ululante.
Eu estava tirando um cochilo quando de repente meus pais
surgem pela porta. Minha mãe desnorteada não conseguia formular uma frase
perfeita, meu pai até esquecera o lugar onde ficam as panelas. Começaram a
fazer almoço, preparando, preparando, preparando... Até que, chegada a hora,
minha mãe gritou:
- “Seu avô está morrendo, Karina.”.
Saí do quarto daquele jeito.
- “Como? Por quê? Quando?”.
Fiquei repetindo essas perguntas como um disco arranhado.
E desabei num pranto profundo, numa escuridão tremenda, naquele buraco negro
das histórias em quadrinhos, no zero grau absoluto do nosso planeta Terra. Agora
entendo aquele sonho maluco que tive em que um homem me chama para entrar num
buraco negro e profundo. Ele dizia que lá dentro havia outro mundo, cheio de
paz e alegria. Mas, eu pagaria um preço por essa felicidade; nunca mais veria
as pessoas que amo, nunca mais voltaria para a Terra. Agora o sonho passa a ter
sentido, o sentido da morte.
Meu avô está em outra dimensão, não vê o presente, e o
futuro é palavra que não existe mais no seu dicionário.
Da última vez que fui visita-lo, ele não disse olá, não
me xingou e nem ao menos abriu os olhos. Imagino-o envolto numa fumaça
nostálgica, viajando nos seus pensamentos. Queria tanto saber o que passa no
seu filme de “flash back”. Minha mãe disse que ele está dormindo. Na verdade,
ele está sonhando profundamente.
E aí, no seu sonho, a Morte chamou meu avô num canto e
disse:
-“Arthur, vamos dar um passeio?”
Ele respondeu “sim” ao convite agradável da amiga Morte.
Enquanto isso, do lado de fora do sonho, aquela entidade
de preto, virou um anjo de luz e sussurrou baixinho no ouvido de todos os
familiares que estavam presentes no apartamento. Hipnoticamente, eles entraram
no quarto e rodearam a alma em transe. Minha avó e os outros se instalaram nas
várias cadeiras em volta da cama e sob efeito de uma misteriosa decisão, sem
precisão de palavras, começaram a rezar o terço. Meu avô respirava
ofegantemente, a dor da respiração era inevitável para aquela carcaça doente e
quase inútil.
Ave Maria, cheia de graça... Pai Nosso que estais no
céu... Santificado... Mistérios... Desceu à mansão dos mortos, ressuscitou ao
terceiro dia... Salve Rainha... Misericórdia.
Um trovão estalou nos céus de Belo Horizonte. Ninguém
teve medo. Meu avô parara de respirar ao ouvir a última oração. Seus olhos se
fecharam suavemente e suas mãos expressivas descansaram para sempre.
Mas, para onde ele foi?
Para um lugar onde uma música suave é tocada por anjos e
arcanjos, com flauta, trompete e arpa. O som de fadas voando vai ninar vô
Arthur e ele dormirá como nunca dormiu antes em sua vida. E quando acordar ele
caminhará por campos verdejantes. De uma montanha avistará um belo vale. Numa
pedra (ou numa nuvem) ele passará um bom tempo apreciando aquele vale úmido e
fresco por onde escorre o véu da querida Celme. Seus filhos serão as ovelhas
pastando naquele paraíso infinito. Uma dessas ovelhas correrá até ele e lhe
lamberá as mãos. Meu avô acariciará o pelo branco e macio do animal. Juntos
eles começam outra jornada. Depois de muito caminhar, do alto de outra grande
montanha, Arthur avistará um Pico.
- Oh, pico brilhante e pontudo, o que fazes de novo no
meu caminho?
Num passe de mágica a ovelha se transforma num burro que
levará meu avô para uma escalada. Eles vão subir, subir, subir... Mal sabe ele
qual jóia irá coletar. Um rapaz de cabelos compridos e barba estará esperando
de braços abertos e seu semblante é de pura felicidade.
- Pai!
-Meu filho!
Os dois se abraçarão. Até que a aventura da morte também
pode ser compensadora! O filho de volta, a paz! Juntos eles passarão a
eternidade. Terão muitos almoços com carne de porco e broto de samambaia,
comerão e beberão a fartar. A comunicação fluirá através dos sentimentos, sem
medo, sem preconceito ou ideologias humanas.
E Deus, na sua eterna sabedoria, preserva na Terra os
passos do meu avô marcados na areia da vida.
Belo Horizonte, 23 de dezembro de 1996

Nenhum comentário:
Postar um comentário