quinta-feira, 25 de junho de 2015

O Tempo e o Relógio - adorado vô Rosa




Tempo na Terra exige ponteiros precisos.
Ponteiros são gotas de vida terrena que se esvaem.
Ninguém sabe o tempo que temos aqui.
Mas, o tempo de Deus é infinito!
Esqueça o relógio!
Esqueça os ponteiros!
Vô, desce dessa escada! Seu relógio está nas mãos de Deus!
Vô, vai dirigir sua Elba, vai pegar sua eterna namorada para passear.
Consertar o relógio não precisa mais, porque aonde você está agora o tempo corre a seu favor. Não há contas a fazer, dias, meses e anos. Sua idade será plena.
No quintal do céu tem jabuticaba o tempo todo! Piscina pra nadar, cerveja Bramha pra tomar, churrasco e tudo que você mais gosta.  Plantas pra cuidar, crianças pra brincar, cachorros e pássaros.
O melhor é que mesmo sem relógio, chegará a hora de te reencontrar. Com direito ao sininho da porta badalar.
Chegou a hora de você voltar a curtir suas melhores sensações! O tempo de Deus é especial! Sair do relógio temporal e viajar por lugares sem contar os minutos.
Todo amor que nos deu transcende as fatias que os ponteiros tentam cortar.
Vai amar mais, Vô!
Todos os netos deveriam ter uma avô como você.
Avô que não tem hora.


terça-feira, 2 de junho de 2015

Hora do almoço com meus avós



- Oi vô! Cheguei!
Todos os dias quando chegava da escola eu o via na porta da loja Rosa & Felipe Ltda. Calça social, camisa de botão com manga curta, sapato marrom ou preto sempre combinando com o cinto. As mãos unidas nas costas, com o relógio dançando no braço. A caneta presa na camisa com dois botões abertos, o cabelo sempre arrumado pra trás e o sorriso por trás do bigode.
- Oi Ina, passou bem de hoje?
Dava-lhe um beijo com cheirinho de loção pós-barba e trocávamos algumas palavras. Ele me perguntava se eu ia subir com ele, o que eu quase sempre fazia.
E lá vamos nós, na hora do almoço, chegando com seu carro na estreita garagem por onde ele passava “zunando” e sem grandes problemas. Chegando lá logo latia um cachorro e vó aparecia na janela. Quando ela não aparecia se fazia ouvir no banheiro cantarolando:
-Uhuuuuuuu!
Um jeitinho especial, que só Vó Tide sabe, gostava também de bater palmas pelo corredor, para alegrar o ambiente e ganhar energia.
E vô, carregado de sacolas do Pag Pouco, subia as escadas com tudo sozinho. Eu tentava ajudar, mas ele era tão forte, que conseguia colocar uns dez sacos em cada braço. Sempre quando ele jogava tudo em cima do balcão de mármore da cozinha minha vó logo dizia:
-Rosinha é exagerado! Olha só que colosso de coisa!
Os dois sempre se encontravam nessa turbulência de coisas do dia-a-dia, e se ele passasse reto, ela reclamava:
-Rosinha, vem me dar um beijo!
Ele voltava e dava sempre rápido, meio de lado, mas dava. Eu ficava por perto observando o jeitinho carinhoso, da vovó que acabara de tomar banho para receber o marido com cheirinho de talco. Naquele segundo, o sol entrava forte pelas janelas e parecia que tudo se transformava em mágica. O brilho da luz, o efeito lento do beijo, a bagunça da cozinha silenciava para aquele momento de carinho único entre o casal.
Pronto acabou, e ele sumia pelo quintal afora, reclamando que mais uma vez o almoço estava atrasado, e que ele tem apenas uma hora de almoço.
Enquanto ele varria, arrumava uma cerca, consertava brinquedos, fazia carrinho de rolimã e casinha para o cachorro eu ajudava vó a terminar o almoço. Ela sempre me pedia para colher uma taioba, limão, couve, cebolinha verde ou qualquer outra verdura que por lá tivesse.


Até que o almoço ficava pronto e a gente ia lavar as mãos para sentar à mesa. Primeiro um cálice de vinho para cada um. Vó Tide e Vô Rosa com seus lugares marcados. Ela sempre me agradecia a ótima companhia e partia pedaços de queijo curado em cubos. Também reservava sua bananinha prata ao lado do prato. Observava o sol e o vento para ver se as janelas precisavam ser fechadas. Vô gostava muito de fazer dois pratos: o da salada gigante com dois dentes de alho cru picado cuidadosamente e só depois o de comida quente. Era interessante o jeito que ele comia, fazendo biquinho e mexendo o bigode. Vó com seu jeito elegante até para comer. Depois da refeição principal vinha a sobremesa. Várias opções: primeiro a laranja que ele comia até o bagaço, depois mangas picadas. Vó pedia pra eu pegar a goiabada cascão que sempre ficava em cima da geladeira. Ô delícia! E o queijo curado de vô era tão especial. Por fim, o cafezinho. Ufa! Quarenta e cinco minutos de almoço e ainda dava tempo para uma soneca na frente da televisão.
Vô sentava na poltrona do papai enquanto assistia ao programa de esportes, eu me deitava no sofá e vó na cadeira ao lado. Todos dormiam. Tão bom ouvir o ronco do vô relaxando! Mas, ele era tão “caxias” que logo levantava, pegava seu carro e ia embora. Ele sempre me deixou por lá, dormindo, mimando a neta e a avó que adorava companhia na parte da tarde.
Nunca me esquecerei dessa famosa “Hora do almoço” com meus avós. Sempre um ritual lento e mágico, me ensinando que devemos levar o dia-a-dia com tranquilidade e beijinhos de amor. Mesmo na correria precisamos parar para nos alimentar com cuidado, alimentos saudáveis, mas principalmente ao redor da família com doses de carinho e muito mimo.

Inconsciente



“Muitas pessoas ainda duvidam da existência e da eficiência do inconsciente. Talvez sejam críticas demais para acreditar no que não se pode ver. O inconsciente é aquilo que não é sabido, que está esquecido e chamamos de recalcado. Ele surge em sonhos, atos falhos, equívocos que cometemos no cotidiano. É muito mais fácil negá-lo que conviver com ele. Levar em conta que algo dentro de si próprio é desconhecido abre novas dimensões do humano.”

Sabe aquelas sensações de prazer indescritível por algumas coisas? Você não sabe de onde vem, mas seu inconsciente sabe. Freud estudou a vida inteira sobre esse nosso lado desconhecido, temos muitos. Alguns como eu tentam vasculhar  alcovas, outros preferem boiar na superfície. Sonhos recorrentes são indícios do inconsciente, um prazer incomensurável, uma fantasia, enfim, penso sobre elas e tente ver seu outro lado da moeda.

Outro dia, conversando com meu pai, falei de um sonho recorrente. Dentro do casarão dos meus avós tem uma passagem secreta que me leva a outra casa. Só eu conheço e às vezes vou para lá. Tem um salão nobre muito chique com paredes rebuscadas e pintadas à mão. Uma sacada enorme e muitos quartos. Nunca vi tantos! Vejo uma mulher com vestido elegante e saia até os pés.

Para minha surpresa, meu pai me disse que parece que estou descrevendo a casa da Rua Guarda-Mor-Custódio, onde vô Rosa nasceu. Ele me disse que é traumatizado até hoje por ter levado um baita susto quando voltou da sua lua-de-mel e viu a casa destroçada no chão. Era um verdadeiro palácio, com 38 cômodos, onde nasceu também Carlos Drummond de Andrade. Infelizmente o comprador não avisou que iria destruí-la para construção de um edifício. Ficamos sem fotos internas e poucas externas. Ou seja, como me lembro de lá? Como explicar esse sonho que se repete tanto e que nele me transporto para um passado que não vivi?

Não sou espírita, mas posso dizer que tenho uma sensibilidade aguçada e amo conhecer o passado.
Também sei que, a mulher elegante me disse uma vez que por trás das paredes daquela casa havia tesouros de família.

Aprendi com a vida que nossa maior riqueza não está nas coisas materiais, portanto, ao invés de abrir paredes atrás de ouro. Sei bem onde encontrar a riqueza que meu sonho tenta me mostrar. Ela está bem ali, na história da família que visito. O legado deixado pelos nossos antepassados, a honra, os serviços prestados à comunidade, o amor, a honestidade, a simplicidade e a elegância.
NOSSA FAMÍLIA É NOSSA MAIOR RIQUEZA!

Talvez seja isso que meu inconsciente queira dizer, mas em linguagem cinematográfica! Freud explica.