Um dia recebi a notícia do meu marido que iria mudar para nosso apartamento seus três filhos e a cachorra deles.
Ok, os filhos eu já sabia
desde o dia do meu casamento, que seriam para sempre, mas a cachorra eu não
queria de cheio nenhum.
-“Ou a cachorra, ou eu!”
Ficou a cachorra, claro!
Desde então, começou a ser
travada uma guerra de amor e ódio entre eu e a cachorra, com nome de Lívia.
Ai, e lá ficava no
“apertamento” a cadela ficava me espiando. Pra todo lugar que eu ia, lá estava
ela. Não me dava privacidade para nada. Na surdina, aparecia só com metade da
cabeça pela porta, me espionando e ainda com muito medo de mim.
Feminino de cão deveria ser
cã, então mais que depressa coloquei esse adorável apelido na cachorra intrusa,
Cã Espiã. Eu a enxotava e ela, aos poucos, centímetro a centímetro, tentava
ficar cada dia mais perto de mim.
E assim foram passando os
meses. Minha alma caridosa não permitia que eu a maltratasse fisicamente e não
permitia também que a deixasse presa em casa, sem direito a um mínimo passeio.
Então, comecei a caminha com ela. Rapidamente ela dominou a rotina de entrar no
carro e sair pra passear. O ritual de colocar o tênis já era motivo para ela se
levantar, pegava os óculos escuros e ela abanava o rabinho, o barulho da chave
do carro acionava o choro, um gemido profundo e por fim, ao pegar a coleira ela
latia furiosamente e pulava com as patinhas da frente para o ar. Ao abrir a
porta do carro ela dava um salto e ficava em pé
na janela para apreciar a vista. A língua enorme pra fora e o vento no
pêlo branquinho, ela ficava linda na janela do carro. Todos na rua olhavam e
achavam uma gracinha. Comecei a sentir o que as mães corujas sentem. Que fofa!
O prazer que a caminhada proporcionava e mais a admiração das pessoas pela
linda cã me fazia ficar cada dia mais apaixonada.
Assim, comecei a chamá-la
Lili, pois já tinha passado vergonha na rua gritando o nome “Lívia” e uma
mulher olhou e me atendeu prontamente. A mulher olhou pra mim como quem diz
“Você me chamou?”.
Depois de dez anos de
convivência ela morreu por causa de uma cirurgia pesada para retirada de muitos
cistos no útero e ovário.
Sinto que tínhamos uma
ligação energética. A morte da Lili me esvaziou por dentro, tirou minha
energia, me fez ficar deprimida.
Ela morreu com quatorze anos
bem vividos. Já era a terceira cirurgia para retirada de tumores e ela resistia
bravamente, mesmo com catarata e a surdez. Ela começou a se perder de mim na
rua. No dia que ela saiu de perto de mim, ficou atarantada. Olhava e não
enxergava e também não ouvia meus chamados. À noite estava difícil dormir, pois
Lili engasgava muito. Coitadinha!
Não vou chorar sua morte
porque ela viveu quatorze anos muito em e logo que os problemas da velhice
chegaram ela faleceu.
A parte mais triste dessa
história foi o último dia.
Fui leva-la ao veterinário.
Chegando lá desci com ela do carro na coleira, que feliz pelo passeio, tentava
caminhar e não conseguia se equilibrar nem pra fazer o cocozinho básico.
Pressentindo aquele mal já entrei chorando na clínica e disse ao veterinário:
-“Rodrigo, a Lili está muito
doente. Olha a barriga dela como está inchada!”
Lili não queria nem entrar no
consultório. Ficou pedindo meu colo enquanto eu a segurava para fazer os
exames. Ela estava com febre e o Rodrigo imaginou uma infecção no útero. Eu
pensei numa ultrassonografia, ele disse que tínhamos que correr contra o tempo
e que daria para operá-la naquela tarde. Lembrei o dia que ele cotou o rabinho
dos filhotinhos da Lili, há muitos anos atrás ele nos acompanha. O veterinário deveria
saber o que estava falando. Mesmo com um alto orçamento em mãos pensei: “Temos
que tentar alguma coisa”.
Fiquei olhando quando a
levaram de mim. Falei com ela: -“Lili, eu te amo e volto pra te pegar.”.
Fui embora chorando e no
final da tarde o Rodrigo ligou falando que o útero dela estava tomado por
tumores, que os ovários estavam do tamanho de limões e que tinha tirado o
útero. Ele relatou que ela estava voltando da anestesia e que a deixaria na
gaiola para que ela não tentasse andar fazendo um esforço que não era permitido
para o momento.
Acordei no dia seguinte e
disse ao meu filho que iria buscar a nossa cachorrinha, minha filha e sua irmã.
No meio do caminho, o telefone tocou. Era o Rodrigo e dessa vez coma voz bem
desanimada. –“Karina, infelizmente a Lili não resistiu e morreu hoje às 6 da
manhã.”.
Entrei em pranto. Os olhos do
Arthur começaram a lacrimejar, mas ele chorou mesmo foi quando me viu chorar.
Fui correndo para a clínica e a vi sendo retirada do freezer. Estava linda como
sempre, com os lacinhos ainda grudados no pelo tão branquinho.
Ela parecia que estava
dormindo. Arthur também foi vê-la. Não pensei muito. Simplesmente levei. Ele
passou a mão no pelo macio e eu até achei estranho pela coragem do garoto. Isso
não o traumatizou, pois nunca mais falou naquele assunto. A barriga costurada
confirmava a cirurgia.
Nunca poderia imaginar o
tamanho da minha tristeza!
Afinal, ela foi meu primeiro
animal de estimação.
Fiquei dois meses chorando,
ainda mais quando me lembrava das minhas últimas palavras para ela. “Eu volto
para te buscar”. Se eu soubesse que seria seu último dia teria me despedido
direito. Teria feito todas as vontades dela.
Nunca tinha compreendido o
ditado que fala que o cachorro é o melhor amigo do homem. É isso mesmo,
cachorro não é gente, mas é a melhor companhia do mundo!
Ele depende de você para
comer, beber, dormir bem e se divertir. Você passa a depender dele para muitas
coisas. É uma troca de energia, o fluxo é constante.
Depois que ela morreu ficou
um vazio, o que mais sentia falta era do bom dia na hora em que acordava. Lá
vinha ela abanando o rabinho e espreguiçando, abrindo o bocão e mostrando a
língua bem grande. Esticava as pernas, fazia xixi e ficava atrás de mim o dia
inteiro afim de um pouco de comida de verdade e um pequeno passeio. Por dois
meses eu a enxergava pela casa, pelos cantos, me espionando, como ficava na
época que chegou aqui em casa, apenas como uma cã espiã.
Aprendi o que é amar e ser
amado por um cão. Na verdade, uma cadelinha poodle muito charmosa, elegante,
branquinha e com pelos bem macios. Ela tinha os olhos pretinhos como seu
focinho.
Lili nunca será substituída,
pois cada animal tem sua personalidade. Um dia quero reencontrá-la na ponte do
arco-íris. Sempre eterna no meu coração, minha primeira filha cã.
Não resisti muito tempo à
tentação de arrumar outra cadelinha igual a ela. Realmente a Madonna é idêntica
fisicamente, mas a personalidade é outra. Por isso, Lili, você sempre será
única no meu coração.

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