quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Amiga pra cachorro




Um dia recebi a notícia do meu marido que iria mudar para nosso apartamento seus três filhos e a cachorra deles.
Ok, os filhos eu já sabia desde o dia do meu casamento, que seriam para sempre, mas a cachorra eu não queria de cheio nenhum.
-“Ou a cachorra, ou eu!”
Ficou a cachorra, claro!

Desde então, começou a ser travada uma guerra de amor e ódio entre eu e a cachorra, com nome de Lívia.

Ai, e lá ficava no “apertamento” a cadela ficava me espiando. Pra todo lugar que eu ia, lá estava ela. Não me dava privacidade para nada. Na surdina, aparecia só com metade da cabeça pela porta, me espionando e ainda com muito medo de mim.
Feminino de cão deveria ser cã, então mais que depressa coloquei esse adorável apelido na cachorra intrusa, Cã Espiã. Eu a enxotava e ela, aos poucos, centímetro a centímetro, tentava ficar cada dia mais perto de mim.

E assim foram passando os meses. Minha alma caridosa não permitia que eu a maltratasse fisicamente e não permitia também que a deixasse presa em casa, sem direito a um mínimo passeio. Então, comecei a caminha com ela. Rapidamente ela dominou a rotina de entrar no carro e sair pra passear. O ritual de colocar o tênis já era motivo para ela se levantar, pegava os óculos escuros e ela abanava o rabinho, o barulho da chave do carro acionava o choro, um gemido profundo e por fim, ao pegar a coleira ela latia furiosamente e pulava com as patinhas da frente para o ar. Ao abrir a porta do carro ela dava um salto e ficava em pé  na janela para apreciar a vista. A língua enorme pra fora e o vento no pêlo branquinho, ela ficava linda na janela do carro. Todos na rua olhavam e achavam uma gracinha. Comecei a sentir o que as mães corujas sentem. Que fofa! O prazer que a caminhada proporcionava e mais a admiração das pessoas pela linda cã me fazia ficar cada dia mais apaixonada.

Assim, comecei a chamá-la Lili, pois já tinha passado vergonha na rua gritando o nome “Lívia” e uma mulher olhou e me atendeu prontamente. A mulher olhou pra mim como quem diz “Você me chamou?”.

Depois de dez anos de convivência ela morreu por causa de uma cirurgia pesada para retirada de muitos cistos no útero e ovário.
Sinto que tínhamos uma ligação energética. A morte da Lili me esvaziou por dentro, tirou minha energia, me fez ficar deprimida.
Ela morreu com quatorze anos bem vividos. Já era a terceira cirurgia para retirada de tumores e ela resistia bravamente, mesmo com catarata e a surdez. Ela começou a se perder de mim na rua. No dia que ela saiu de perto de mim, ficou atarantada. Olhava e não enxergava e também não ouvia meus chamados. À noite estava difícil dormir, pois Lili engasgava muito. Coitadinha!
Não vou chorar sua morte porque ela viveu quatorze anos muito em e logo que os problemas da velhice chegaram ela faleceu.
A parte mais triste dessa história foi o último dia.
Fui leva-la ao veterinário. Chegando lá desci com ela do carro na coleira, que feliz pelo passeio, tentava caminhar e não conseguia se equilibrar nem pra fazer o cocozinho básico. Pressentindo aquele mal já entrei chorando na clínica e disse ao veterinário:
-“Rodrigo, a Lili está muito doente. Olha a barriga dela como está inchada!”
Lili não queria nem entrar no consultório. Ficou pedindo meu colo enquanto eu a segurava para fazer os exames. Ela estava com febre e o Rodrigo imaginou uma infecção no útero. Eu pensei numa ultrassonografia, ele disse que tínhamos que correr contra o tempo e que daria para operá-la naquela tarde. Lembrei o dia que ele cotou o rabinho dos filhotinhos da Lili, há muitos anos atrás ele nos acompanha. O veterinário deveria saber o que estava falando. Mesmo com um alto orçamento em mãos pensei: “Temos que tentar alguma coisa”.
Fiquei olhando quando a levaram de mim. Falei com ela: -“Lili, eu te amo e volto pra te pegar.”.
Fui embora chorando e no final da tarde o Rodrigo ligou falando que o útero dela estava tomado por tumores, que os ovários estavam do tamanho de limões e que tinha tirado o útero. Ele relatou que ela estava voltando da anestesia e que a deixaria na gaiola para que ela não tentasse andar fazendo um esforço que não era permitido para o momento.
Acordei no dia seguinte e disse ao meu filho que iria buscar a nossa cachorrinha, minha filha e sua irmã. No meio do caminho, o telefone tocou. Era o Rodrigo e dessa vez coma voz bem desanimada. –“Karina, infelizmente a Lili não resistiu e morreu hoje às 6 da manhã.”.
Entrei em pranto. Os olhos do Arthur começaram a lacrimejar, mas ele chorou mesmo foi quando me viu chorar. Fui correndo para a clínica e a vi sendo retirada do freezer. Estava linda como sempre, com os lacinhos ainda grudados no pelo tão branquinho.
Ela parecia que estava dormindo. Arthur também foi vê-la. Não pensei muito. Simplesmente levei. Ele passou a mão no pelo macio e eu até achei estranho pela coragem do garoto. Isso não o traumatizou, pois nunca mais falou naquele assunto. A barriga costurada confirmava a cirurgia.
Nunca poderia imaginar o tamanho da minha tristeza!
Afinal, ela foi meu primeiro animal de estimação.
Fiquei dois meses chorando, ainda mais quando me lembrava das minhas últimas palavras para ela. “Eu volto para te buscar”. Se eu soubesse que seria seu último dia teria me despedido direito. Teria feito todas as vontades dela.

Nunca tinha compreendido o ditado que fala que o cachorro é o melhor amigo do homem. É isso mesmo, cachorro não é gente, mas é a melhor companhia do mundo!
Ele depende de você para comer, beber, dormir bem e se divertir. Você passa a depender dele para muitas coisas. É uma troca de energia, o fluxo é constante.

Depois que ela morreu ficou um vazio, o que mais sentia falta era do bom dia na hora em que acordava. Lá vinha ela abanando o rabinho e espreguiçando, abrindo o bocão e mostrando a língua bem grande. Esticava as pernas, fazia xixi e ficava atrás de mim o dia inteiro afim de um pouco de comida de verdade e um pequeno passeio. Por dois meses eu a enxergava pela casa, pelos cantos, me espionando, como ficava na época que chegou aqui em casa, apenas como uma cã espiã.

Aprendi o que é amar e ser amado por um cão. Na verdade, uma cadelinha poodle muito charmosa, elegante, branquinha e com pelos bem macios. Ela tinha os olhos pretinhos como seu focinho.
Lili nunca será substituída, pois cada animal tem sua personalidade. Um dia quero reencontrá-la na ponte do arco-íris. Sempre eterna no meu coração, minha primeira filha cã.


Não resisti muito tempo à tentação de arrumar outra cadelinha igual a ela. Realmente a Madonna é idêntica fisicamente, mas a personalidade é outra. Por isso, Lili, você sempre será única no meu coração.

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