Era uma vez uma cidade bem velhinha. Tinha 160 anos de
idade e mais de 300 anos de história.
Nesta cidade, chamada Itabira, as ruas falam, as casas
falam, as montanhas falam. Não são todas as pessoas que conseguem ver. Mas eu
vejo a cada esquina um antepassado que nos observa e nos manda sinais.
São tantos os personagens que conhecemos através das
histórias que nossos avós, pais, professores e poetas nos contam. Figuras
ilustres da nossa terra que ficaram com suas almas encrustadas em nossas ruas,
nossas casas, nossa cidade.
Num dia de pouco sol e muito frio um forasteiro
invadiu a cidade exigindo que a modernidade nos traga melhorias. Esse
forasteiro tinha boas intenções, mas não sabia escutar as casas, as ruas, os
espíritos de nossos antepassados.
O jovem não conhece a nossa velha história, ele usa
grandes botas de couro que passam por cima de tudo e de todos.
Ele não escuta a voz dos mais velhos, daqueles que
representam a alma da cidade. Ele quer apenas trabalhar e mostrar serviço.
A cidade se modifica, o povo se cala. Eu vejo Brás
Martins da Costa, Batistinha, Dr Rosa, Mestre Emílio, Alfredo Duval, Carlos
Drummond de Andrade e tantos outros personagens consternados com a modificação
do nosso cenário.”Tutu Caramujo cisma na derrota imcomparável”. Eles estão
tristes, mas ao mesmo tempo zombam de nossa fraqueza, de nossa mudez.
Sinto que nossos personagens estão nos deixando e
junto deles nossas ruas, nossas casas, nossas montanhas. Tudo está se esvaindo,
virando névoa, indo pro mundo dos espíritos. Minha esperança também está se
acabando. Enquanto perdemos nossa força toda a cidade vai ficando invisível.
O povo fica entre o passado que fala e o presente que
se cala.
As botas de couro do forasteiro passam por cima de
tudo e de todos.
Ele não consegue enxergar que a cidade está ficando
cada vez mais fraca. Falta sensibilidade para o forasteiro perceber que a nossa
história é nosso amuleto da sorte. A modernidade que ele tanto quer implantar
tem que respeitar os mais velhos.
Faltou educação, o caboclo não pediu licença e nem
consentimento.
Eu vejo, eu sinto. Eu falo e não me calo.
Mesmo chorando ainda tenho forças pra tentar. Não
quero que destruam meu passado, minha história, dos quais tanto me orgulho. Ou
orgulhava? Caso contrário, até eu vou desaparecer. Ficar invisível.


Nenhum comentário:
Postar um comentário