quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Sentimento Itabirano



Era uma vez uma cidade bem velhinha. Tinha 160 anos de idade e mais de 300 anos de história.
Nesta cidade, chamada Itabira, as ruas falam, as casas falam, as montanhas falam. Não são todas as pessoas que conseguem ver. Mas eu vejo a cada esquina um antepassado que nos observa e nos manda sinais.
São tantos os personagens que conhecemos através das histórias que nossos avós, pais, professores e poetas nos contam. Figuras ilustres da nossa terra que ficaram com suas almas encrustadas em nossas ruas, nossas casas, nossa cidade.
Num dia de pouco sol e muito frio um forasteiro invadiu a cidade exigindo que a modernidade nos traga melhorias. Esse forasteiro tinha boas intenções, mas não sabia escutar as casas, as ruas, os espíritos de nossos antepassados.
O jovem não conhece a nossa velha história, ele usa grandes botas de couro que passam por cima de tudo e de todos.
Ele não escuta a voz dos mais velhos, daqueles que representam a alma da cidade. Ele quer apenas trabalhar e mostrar serviço.
A cidade se modifica, o povo se cala. Eu vejo Brás Martins da Costa, Batistinha, Dr Rosa, Mestre Emílio, Alfredo Duval, Carlos Drummond de Andrade e tantos outros personagens consternados com a modificação do nosso cenário.”Tutu Caramujo cisma na derrota imcomparável”. Eles estão tristes, mas ao mesmo tempo zombam de nossa fraqueza, de nossa mudez. 
Sinto que nossos personagens estão nos deixando e junto deles nossas ruas, nossas casas, nossas montanhas. Tudo está se esvaindo, virando névoa, indo pro mundo dos espíritos. Minha esperança também está se acabando. Enquanto perdemos nossa força toda a cidade vai ficando invisível.
O povo fica entre o passado que fala e o presente que se cala.
As botas de couro do forasteiro passam por cima de tudo e de todos.
Ele não consegue enxergar que a cidade está ficando cada vez mais fraca. Falta sensibilidade para o forasteiro perceber que a nossa história é nosso amuleto da sorte. A modernidade que ele tanto quer implantar tem que respeitar os mais velhos.
Faltou educação, o caboclo não pediu licença e nem consentimento.
Eu vejo, eu sinto. Eu falo e não me calo.
Mesmo chorando ainda tenho forças pra tentar. Não quero que destruam meu passado, minha história, dos quais tanto me orgulho. Ou orgulhava? Caso contrário, até eu vou desaparecer. Ficar invisível.




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