sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Histórias de uma menina do interior

Itabira, 1998

A poesia me chamou para dar uma volta nesse quintal.
Bem, aqui estou.
Meu Deus, há tanto tempo não venho apreciar esse pedacinho da minha infância! Essas jabuticabeiras me parecem tão sós. Será que não brincam mais? Há muito tempo elas costumavam ser alegres e exuberantes, tão viçosas que vinha gente da cidade inteira pedir prova de seus frutos.




- “Senhor Rosa, será que dá pra me arrumar um saquinho de jabuticaba? O Senhor sabe, não é? A gente ouve falar que são as melhores da cidade e que enchem tanto as galhas que toda a árvore chega a ficar preta.” Dizia o moço que tocou campainha.
- “Não só as galhas, meu amigo, todo o quintal fica preto como a noite.” Dizia meu avô todo orgulhoso com a popularidade das suas frutas.
Meu avô fazia questão de levar todas as visitas no jardim para mostrar-lhes as flores e a horta. Depois subia nos pés de jabuticaba com um saco e enchia com as jabuticabas mais suculentas. Todos saíam encantados com a colheita do meu avô que não media esforços para agradar a todos.
Eu e meus primos brincávamos por horas e horas até que o dia ia chegando ao fim. Impressionante como nunca tive medo da escuridão, pois, às vezes caía no sono deitada nas galhas e minha mãe só me encontrava quando as estrelas já tinham comandado o céu.
Eu morava no pé de jabuticaba que ficava ao lado do muro do vizinho e cada primo tinha sua respectiva moradia naquele quintal. Cada árvore era uma casa e não tinha nenhum sem árvore naquela família.
Quando a família cresceu e os pequenos começaram a querer subir nas árvores, tivemos que inovar nossas casas transformando-as em apartamentos.
Dezembro vinha chegando e era uma verdadeira festa ver as flores se transformando em frutos, para depois de verdes, amadurecer.
Nessa fase, eu e meus primos não tínhamos moradia e só vínhamos a subir nas árvores na hora da colheita.
A casca da jabuticaba tem que ficar “fininha” para que a fruta fique mais doce. Eu devorava todas sem preconceito, docinhas e azedinhas, pequenas e “bitelas”.
Era engraçado quando tinha mais gente no mesmo pé. O mais esperto subia mais alto e de lá jogava as cascas e sementes na cabeça do outro. Eu nunca perdia quando apostávamos quem subia mais alto e também ficar mais tempo lá no alto do pé. Mas, eu não apostava com meu irmão mais velho.
Aquele quintal era a maior festa que todas as crianças desejavam ter. Era o melhor conto de fadas.  Este quintal é um conto de fadas que ainda não foi escrito. Faz lembrar Walt Disney, Alice no país das Maravilhas, Chapeuzinho Vermelho e Bambi. Me faz ver o céu mais azul e sentir o dia maior. Queria que aquele fosse o lugar onde eu como, vivo e durmo. Uma casa na árvore resolveria esses problemas.
Cá estou de volta ao passado, pois a poesia me chamou para brindarmos a saudade. Eu vejo o tempo que passou, vejo cada ano pendurado nos galhos mais velhos e “cascorentos”.
-Olá, amiga árvore. Estou de volta!
Silêncio no ar, elas devem estar chateadas comigo. Passei tanto tempo sem vê-las. Estou sendo observada e elas olham espantadas para mim, suas galhas se agitam e as folhas balançam, caindo pelo meu cabelo. Elas já estão mais velhas, devem ter uns duzentos anos. Percebo que estão conversando entre elas. Primeiro uma fala e balança, depois a outra responde balançando seus galhos também.
-“Verdinha, essa é a Karina?” Uma sacode pra outra perguntando.
-“Ela mesma. Está mais velha, virou mulher.” Verdinha sacode respondendo.
-“Vocês lembram qual foi a última vez que ela brincou com a gente?” Pergunta a árvore mais frondosa do quintal.
“Há muitos anos atrás. Vocês se lembram da vó dela chorando baixinho escondida aqui no quintal? Ela chorava as saudades da neta mais velha e querida. As duas eram amigas e companheiras.” Responde a árvore que nasceu dividida entre dois muros.
Arvrinha é a mais esperta, escuta tudo porque fica mais perto da casa. Ela fala em tom solene para as outras dezesseis árvores ouvirem e participarem da conversa:
- “Matilde rezava para Deus iluminar e proteger a menina de todos os perigos da cidade grande.”
-“Será que já casou? Será que tem filhos? Os olhos dela não trazem felicidade. Ela veio se juntar a nós para esconder lágrimas.”.
-“A Karina voltou porque sentiu saudades, esta é a verdade.”
Nesta hora todas as folhas balançaram como se um vento forte as tivesse sacudido. Vários presentes foram caindo de seus galhos que ofertavam cascas antigas, frutos e gotas de orvalho.
A poesia e eu agora tomávamos a saudade em doses de amor e reflexão. As lágrimas apareceram sem serem convidadas e eu fechei os olhos para expulsá-las.




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