terça-feira, 2 de junho de 2015

Hora do almoço com meus avós



- Oi vô! Cheguei!
Todos os dias quando chegava da escola eu o via na porta da loja Rosa & Felipe Ltda. Calça social, camisa de botão com manga curta, sapato marrom ou preto sempre combinando com o cinto. As mãos unidas nas costas, com o relógio dançando no braço. A caneta presa na camisa com dois botões abertos, o cabelo sempre arrumado pra trás e o sorriso por trás do bigode.
- Oi Ina, passou bem de hoje?
Dava-lhe um beijo com cheirinho de loção pós-barba e trocávamos algumas palavras. Ele me perguntava se eu ia subir com ele, o que eu quase sempre fazia.
E lá vamos nós, na hora do almoço, chegando com seu carro na estreita garagem por onde ele passava “zunando” e sem grandes problemas. Chegando lá logo latia um cachorro e vó aparecia na janela. Quando ela não aparecia se fazia ouvir no banheiro cantarolando:
-Uhuuuuuuu!
Um jeitinho especial, que só Vó Tide sabe, gostava também de bater palmas pelo corredor, para alegrar o ambiente e ganhar energia.
E vô, carregado de sacolas do Pag Pouco, subia as escadas com tudo sozinho. Eu tentava ajudar, mas ele era tão forte, que conseguia colocar uns dez sacos em cada braço. Sempre quando ele jogava tudo em cima do balcão de mármore da cozinha minha vó logo dizia:
-Rosinha é exagerado! Olha só que colosso de coisa!
Os dois sempre se encontravam nessa turbulência de coisas do dia-a-dia, e se ele passasse reto, ela reclamava:
-Rosinha, vem me dar um beijo!
Ele voltava e dava sempre rápido, meio de lado, mas dava. Eu ficava por perto observando o jeitinho carinhoso, da vovó que acabara de tomar banho para receber o marido com cheirinho de talco. Naquele segundo, o sol entrava forte pelas janelas e parecia que tudo se transformava em mágica. O brilho da luz, o efeito lento do beijo, a bagunça da cozinha silenciava para aquele momento de carinho único entre o casal.
Pronto acabou, e ele sumia pelo quintal afora, reclamando que mais uma vez o almoço estava atrasado, e que ele tem apenas uma hora de almoço.
Enquanto ele varria, arrumava uma cerca, consertava brinquedos, fazia carrinho de rolimã e casinha para o cachorro eu ajudava vó a terminar o almoço. Ela sempre me pedia para colher uma taioba, limão, couve, cebolinha verde ou qualquer outra verdura que por lá tivesse.


Até que o almoço ficava pronto e a gente ia lavar as mãos para sentar à mesa. Primeiro um cálice de vinho para cada um. Vó Tide e Vô Rosa com seus lugares marcados. Ela sempre me agradecia a ótima companhia e partia pedaços de queijo curado em cubos. Também reservava sua bananinha prata ao lado do prato. Observava o sol e o vento para ver se as janelas precisavam ser fechadas. Vô gostava muito de fazer dois pratos: o da salada gigante com dois dentes de alho cru picado cuidadosamente e só depois o de comida quente. Era interessante o jeito que ele comia, fazendo biquinho e mexendo o bigode. Vó com seu jeito elegante até para comer. Depois da refeição principal vinha a sobremesa. Várias opções: primeiro a laranja que ele comia até o bagaço, depois mangas picadas. Vó pedia pra eu pegar a goiabada cascão que sempre ficava em cima da geladeira. Ô delícia! E o queijo curado de vô era tão especial. Por fim, o cafezinho. Ufa! Quarenta e cinco minutos de almoço e ainda dava tempo para uma soneca na frente da televisão.
Vô sentava na poltrona do papai enquanto assistia ao programa de esportes, eu me deitava no sofá e vó na cadeira ao lado. Todos dormiam. Tão bom ouvir o ronco do vô relaxando! Mas, ele era tão “caxias” que logo levantava, pegava seu carro e ia embora. Ele sempre me deixou por lá, dormindo, mimando a neta e a avó que adorava companhia na parte da tarde.
Nunca me esquecerei dessa famosa “Hora do almoço” com meus avós. Sempre um ritual lento e mágico, me ensinando que devemos levar o dia-a-dia com tranquilidade e beijinhos de amor. Mesmo na correria precisamos parar para nos alimentar com cuidado, alimentos saudáveis, mas principalmente ao redor da família com doses de carinho e muito mimo.

4 comentários:

  1. Karina,quanta doçura e quanta verdade em suas palavras.Adorei a forma delicada e ao mesmo tempo rebuscada como você retrata de modo tão pitoresco cenas do cotidiano,que colocadas de forma tão simples e tão poéticas se tornam tão especiais e únicas.Ainda mais se tratando deste casalzinho tão amados por todos nós.Me emocionei ...portanto virei sua fã.

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  2. obrigada, Márcia. Fico cheia de vaidades.

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  3. Que ótimo Karina!Lindas palavras para seus avós, eles devem estar bem alegres com todo este carinho! Bjs e parabéns!

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  4. Que texto mais lindo! Lembro tb dessa cena pois já almocei algumas vezes com vc na casa dos seus avós. Como era lindo o amor deles!!! Lindo tb é ver como vc relata com carinho os dias especiais ao lado deles. Puro e verdadeiro amor!

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