- Oi vô!
Cheguei!
Todos os
dias quando chegava da escola eu o via na porta da loja Rosa & Felipe Ltda.
Calça social, camisa de botão com manga curta, sapato marrom ou preto sempre
combinando com o cinto. As mãos unidas nas costas, com o relógio dançando no
braço. A caneta presa na camisa com dois botões abertos, o cabelo sempre
arrumado pra trás e o sorriso por trás do bigode.
- Oi Ina,
passou bem de hoje?
Dava-lhe um
beijo com cheirinho de loção pós-barba e trocávamos algumas palavras. Ele me
perguntava se eu ia subir com ele, o que eu quase sempre fazia.
E lá vamos
nós, na hora do almoço, chegando com seu carro na estreita garagem por onde ele
passava “zunando” e sem grandes problemas. Chegando lá logo latia um cachorro e
vó aparecia na janela. Quando ela não aparecia se fazia ouvir no banheiro
cantarolando:
-Uhuuuuuuu!
Um jeitinho
especial, que só Vó Tide sabe, gostava também de bater palmas pelo corredor,
para alegrar o ambiente e ganhar energia.
E vô,
carregado de sacolas do Pag Pouco, subia as escadas com tudo sozinho. Eu
tentava ajudar, mas ele era tão forte, que conseguia colocar uns dez sacos em
cada braço. Sempre quando ele jogava tudo em cima do balcão de mármore da
cozinha minha vó logo dizia:
-Rosinha é
exagerado! Olha só que colosso de coisa!
Os dois
sempre se encontravam nessa turbulência de coisas do dia-a-dia, e se ele
passasse reto, ela reclamava:
-Rosinha,
vem me dar um beijo!
Ele voltava
e dava sempre rápido, meio de lado, mas dava. Eu ficava por perto observando o
jeitinho carinhoso, da vovó que acabara de tomar banho para receber o marido
com cheirinho de talco. Naquele segundo, o sol entrava forte pelas janelas e
parecia que tudo se transformava em mágica. O brilho da luz, o efeito lento do
beijo, a bagunça da cozinha silenciava para aquele momento de carinho único
entre o casal.
Pronto
acabou, e ele sumia pelo quintal afora, reclamando que mais uma vez o almoço
estava atrasado, e que ele tem apenas uma hora de almoço.
Enquanto ele
varria, arrumava uma cerca, consertava brinquedos, fazia carrinho de rolimã e
casinha para o cachorro eu ajudava vó a terminar o almoço. Ela sempre me pedia
para colher uma taioba, limão, couve, cebolinha verde ou qualquer outra verdura
que por lá tivesse.
Até que o
almoço ficava pronto e a gente ia lavar as mãos para sentar à mesa. Primeiro um
cálice de vinho para cada um. Vó Tide e Vô Rosa com seus lugares marcados. Ela
sempre me agradecia a ótima companhia e partia pedaços de queijo curado em
cubos. Também reservava sua bananinha prata ao lado do prato. Observava o sol e
o vento para ver se as janelas precisavam ser fechadas. Vô gostava muito de
fazer dois pratos: o da salada gigante com dois dentes de alho cru picado
cuidadosamente e só depois o de comida quente. Era interessante o jeito que ele
comia, fazendo biquinho e mexendo o bigode. Vó com seu jeito elegante até para
comer. Depois da refeição principal vinha a sobremesa. Várias opções: primeiro
a laranja que ele comia até o bagaço, depois mangas picadas. Vó pedia pra eu
pegar a goiabada cascão que sempre ficava em cima da geladeira. Ô delícia! E o
queijo curado de vô era tão especial. Por fim, o cafezinho. Ufa! Quarenta e
cinco minutos de almoço e ainda dava tempo para uma soneca na frente da
televisão.
Vô sentava
na poltrona do papai enquanto assistia ao programa de esportes, eu me deitava
no sofá e vó na cadeira ao lado. Todos dormiam. Tão bom ouvir o ronco do vô
relaxando! Mas, ele era tão “caxias” que logo levantava, pegava seu carro e ia
embora. Ele sempre me deixou por lá, dormindo, mimando a neta e a avó que
adorava companhia na parte da tarde.
Nunca me
esquecerei dessa famosa “Hora do almoço” com meus avós. Sempre um ritual lento
e mágico, me ensinando que devemos levar o dia-a-dia com tranquilidade e
beijinhos de amor. Mesmo na correria precisamos parar para nos alimentar com
cuidado, alimentos saudáveis, mas principalmente ao redor da família com doses
de carinho e muito mimo.
Karina,quanta doçura e quanta verdade em suas palavras.Adorei a forma delicada e ao mesmo tempo rebuscada como você retrata de modo tão pitoresco cenas do cotidiano,que colocadas de forma tão simples e tão poéticas se tornam tão especiais e únicas.Ainda mais se tratando deste casalzinho tão amados por todos nós.Me emocionei ...portanto virei sua fã.
ResponderExcluirobrigada, Márcia. Fico cheia de vaidades.
ResponderExcluirQue ótimo Karina!Lindas palavras para seus avós, eles devem estar bem alegres com todo este carinho! Bjs e parabéns!
ResponderExcluirQue texto mais lindo! Lembro tb dessa cena pois já almocei algumas vezes com vc na casa dos seus avós. Como era lindo o amor deles!!! Lindo tb é ver como vc relata com carinho os dias especiais ao lado deles. Puro e verdadeiro amor!
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