No Natal do ano passado estávamos todos juntos, como de
costume. Vó Tide, Vô Rosa, os filhos, netos e bisnetos no Casarão Rosa. A vida
é bela!
Eles estavam com os cabelos branquinhos, cansados,
dormiam muito, comiam pouco. Reclamavam de tudo, implicavam com todos e entre
eles. Já davam sinais que estava chegando o final da caminhada.
Durante a noite de Natal estávamos na sala de fora onde
sempre foi montada a árvore e o presépio. Meu avô ficava entretido nessa
arrumação, inclusive das luzes que colocava na sacada. Durante vários dias, ele
testava os fios, fazia suas gambiarras, fita isolante, pregos, martelo,
barbante e por aí vai. Mas, no ano passado ele não fez nada disso.
Meus avós tinham adoração com o presépio. Os bisnetos
pequenos chegando correndo pela sala e vó Tide pedindo para tomar cuidado com
as imagens antigas, principalmente do Menino Jesus.
Em todos os anos foi assim: levavam o menino Jesus, de
mãos dadas, para nascer na manjedoura, no dia 24 de dezembro. Nem todos
participavam juntos, alguns preferiam ficar lá no quintal, bebendo sua cerveja.
Mas, no ano passado, foi diferente. Algo sobrenatural aconteceu. Fizemos uma
encenação da noite de Natal, sem ensaio, espontânea, tocante. Os dois lá,
assistindo a tudo. Adultos e crianças se envolveram nas tarefas de assumir seus
papéis e fazer tudo com envolvimento. Foi um espetáculo! Depois um círculo foi
formado e demos as mãos. O Menino Jesus circulou de mão em mão, recebendo
beijos de todos nós, agradecimentos e pedidos. Claro, que pedimos apenas coisas
boas.
Porque não passa pela cabeça do ser humano que o pior
pode acontecer? Ou se passa, preferimos ficar com o pensamento positivo e evitar
enfrentamentos.
Ninguém poderia prever que os dois iriam falecer, meu avô
em março e em seguida, abril, minha avó.
Alguém poderia prever a tragédia da Samarco Mineração e
impedir as mortes e a destruição da vila de Bento Rodrigues?
Alguém poderia prever a morte do Rio Doce. E se previram,
fizeram alguma coisa? Nada foi feito, nada foi dito. A vida seguiu.
E o destino aparece de repente em forma da Dona morte,
amiga, acolhedora. Vários sinais foram revelados para quem tem olhos ver, quem
tem ouvidos escutar, quem tem alma sentir.
Assim aconteceu com outras grandes tragédias de 2015. Os
sinais foram manifestados.
O pássaro Fênix, da mitologia grega, entra em
combustão antes de morrer para depois renascer. Se das cinzas a Fênix ressurge,
podemos levar esse ensinamento para nossa realidade. Que por trás da crise
econômica brasileira surja uma nova frente de pessoas honestas que queiram
mudar esse país. Que por trás de tantos atentados terroristas surja a união
entre os países do mundo, a solidariedade e a paz. E desse mar de lama que
matou o nosso Rio Doce, surja uma nova oportunidade para a natureza. Maior
consciência ecológica por parte da sociedade e dos empresários.
Se esse ano foi ruim, o outro deve ser melhor. Por que a
vida é feita de ciclos, ou melhor, é como uma montanha russa, logo depois de
uma descida tem a subida.
É difícil mudar, sair de uma situação confortável e
assumir riscos. É como colocar os pezinhos na rua num dia de chuva e correr sem
sombrinha por aí. No início a gente acha ruim, mas depois acostuma com a chuva
e começa a dar risada, pular nas poças e se divertir. O jeito é mesmo dançar na
chuva, porque em 2015 choveu canivetes no meu quintal. Acho que está assim pra
todo mundo. “Não tá fácil pra ninguém.”.
Que por trás de tanta lama figurada e literal, ressurja a
esperança. Mitologicamente essa possibilidade sempre existiu. Do caos sempre
deve surgir ordem, das trevas a luz, da morte a vida.
Essa crise é um momento de nos retrairmos assim: olhamos
pela janela, e a chuva forte cai lá fora, como não conseguimos enxergar o que
tem na frente, paramos e pensamos: pra quê me arriscar? Mas, tem um ditado que
diz: quem não arrisca, não petisca.
Por isso, “corra, Lola, corra” de bota sete léguas e não
leve guarda chuva. Quem está na vida é para se molhar!
Esse Natal vai ser bom pra mim e pra minha família.
Apesar de ser totalmente diferente. Seguiremos o exemplo dos meus avós, de
colocar o Menino Jesus na manjedoura com todo carinho. Nele carregamos nossa
esperança de que um novo ano comece, com novas forças, novas esperanças. Nosso
maior símbolo de ressureição e vitória.




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