Vô apareceu de sunga nos meus sonhos! Porque eu estava na
praia, e lá no hotel, dormindo, ele me visitou. Foi lá pra me dizer que também
estava presente. Ele e vó. Só que vó estava escondida debaixo do guarda sol. Eu
deveria saber. Ela e sua pele branca de boneca porcelana, descendente de avô
que veio de Portugal aos 13 anos para trabalhar e mandar dinheiro para a
família pobre.
-Ina, você vai querer milho? Ou picolé? Toma aí.
Era assim mesmo, toda hora ele oferecia e tirava dinheiro
de dentro da sunga. Meu avô Rosa gostava de clube, mas na praia ele ficava
igual pinto no lixo. Se você ainda não ouviu esse ditado pode parecer um pouco
estranho. Fiquei sabendo que pinto fica feliz no lixo porque tem onde ciscar.
Pois é, agora que você já sabe vai passar a usar mais esse dito popular. Enfim,
voltando ao meu avô na praia. Ele ficava preto pretinho e não passava filtro
solar. Lembrando que ele nasceu em 1916 e não existia filtro, mas depois ele me
dizia que sua pele estava curtida e que ele era preto mesmo. Com 98 anos sua
pele estava repleta de pintas gigantes, mas, nenhuma deu trabalho, nem doença
para ele ao longo desses anos todos. Realmente o sol era muito amigo de vô.
Pensar em praia é pensar em vô Rosa. Meus pais já os
convidaram para viajar juntos e a viagem ficava mais divertida. Vó gostava de
escrever nos guardanapos que encontrava pelos restaurantes. Naquela época eles
eram grafados e ela coloca a data e o nome das pessoas que estavam no restaurante.
Vô gostava de peixe frito, cerveja e uma cachacinha da mineira.
Minha mãe se lembrou de um caso ótimo e escreveu no livro
das Bodas de Vinho. Vou transcrever aqui:
Meu sogro
tem o apelido de “Rosinha” desde seu nascimento, porque seu pai era o “Doutor
Rosa”, médico muito conceituado nesta cidade de Itabira.
Este
apelido trouxe muito embaraço para ele, por diversas vezes. Chamado ao telefone
da loja Rosa e Felipe, o freguês queria falar com “dona Rosinha” e nada fazia
aceitar que “Rosinha” era um homem, casado com a “Tide” de Nova Era.
Algumas
pessoas passaram a chamá-lo de “Seu Rosa” à medida que foi envelhecendo e
tomando um ar mais sério.
Algumas
vezes um amigo passava por perto e exclamava: “olá, Rosinha, e quem passava ao
lado olhava com interrogação, que nome para se colocar num senhor???
Mudando
para outro fato interessante, num período de férias que fomos em Guarapari ES /eu,
Mauricio, Matilde, nossos três filhos,Henrique, Karina e Alexandre com 2 anos,
hospedamos no condomínio Caparaó onde
alugam os apartamentos de quarto e sala, muito simples mas de frente da praia
das Castanheiras, no centro da cidade.
Ao lado do
prédio havia uma enorme castanheira onde se escondiam na sombra, os jogadores
de “bicho”, jogo proibido pelo governo, mas lá era liberado.
Rosinha
sempre foi jogador assíduo e todos os dias, ao se levantar,corria para debaixo
da árvore para fazer seu joguinho antes de sair para a caminhada na praia.Certo
dia eu lhe disse que havia sonhado com alguns números e lembrei de todos, mas o
bicheiro não apareceu, e nós, presos sem poder passear.Até que ele decidiu
largar aquele vício para la e fomos ao passeio. Voltamos tarde e fomos dormir.
No dia seguinte, bem cedo ele foi conferir e tinha dado os mesmos números, ele
ficou pensando em tudo que poderia fazer com aquele dinheiro, mas a sorte já
havia passado.
Foi só
naquele dia, não saiu nem sombra de prêmio.
Maria Raquel Penido Rosa- 28.07.2012
Pois é, olha só que sacanagem com meu avô. Justamente no
dia que ele não fez a fé dele, os números saíram. Sabe-se lá qual plano Deus
tinha pra ele. Acho que foi melhor assim. Só sei que o vício de apostar na
sorte não passou nada. A vida inteira meus dois avôs fizeram apostas na casa
lotérica.
Acredito que após a morte nosso corpo e alma são
devolvidos ao cosmos em forma de energia. Pude sentir meus avós lá em
Trancoso. Senti meu avô Arthur nas praias de Porto Seguro. Ele foi convocado na
Segunda Guerra Mundial, esteve lá enfrentando o medo e protegendo a costa
brasileira.
Eu parei pra olhar o céu, uma imensidão de estrelas e pensei que eles poderiam estar ali, pois foram estrelas em nossa vida. Luz volta a ser luz. Trevas volta a ser trevas. Dos meus olhos escorreram lágrimas que ao chegarem à minha boca me trouxeram o gostinho do mar. Dentro de nós existe um mar imenso de possibilidade. Eu escuto e vejo os sinais. Choro ao contemplar a imensidão do universo, a grandeza de Deus e o mistério que ronda tudo isso. Só posso ser grata. Eu choro em ver tanta beleza.
E que todas as energias boas que meus avós cultivaram aqui na Terra voltem ao Cosmos e aos seus. Seremos sua eterna família, eterna linhagem! E um dia voltaremos como eles ao universo.
Eu parei pra olhar o céu, uma imensidão de estrelas e pensei que eles poderiam estar ali, pois foram estrelas em nossa vida. Luz volta a ser luz. Trevas volta a ser trevas. Dos meus olhos escorreram lágrimas que ao chegarem à minha boca me trouxeram o gostinho do mar. Dentro de nós existe um mar imenso de possibilidade. Eu escuto e vejo os sinais. Choro ao contemplar a imensidão do universo, a grandeza de Deus e o mistério que ronda tudo isso. Só posso ser grata. Eu choro em ver tanta beleza.
E que todas as energias boas que meus avós cultivaram aqui na Terra voltem ao Cosmos e aos seus. Seremos sua eterna família, eterna linhagem! E um dia voltaremos como eles ao universo.
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