sábado, 17 de outubro de 2015

Energias telúricas na praia


Vô apareceu de sunga nos meus sonhos! Porque eu estava na praia, e lá no hotel, dormindo, ele me visitou. Foi lá pra me dizer que também estava presente. Ele e vó. Só que vó estava escondida debaixo do guarda sol. Eu deveria saber. Ela e sua pele branca de boneca porcelana, descendente de avô que veio de Portugal aos 13 anos para trabalhar e mandar dinheiro para a família pobre.
-Ina, você vai querer milho? Ou picolé? Toma aí.
Era assim mesmo, toda hora ele oferecia e tirava dinheiro de dentro da sunga. Meu avô Rosa gostava de clube, mas na praia ele ficava igual pinto no lixo. Se você ainda não ouviu esse ditado pode parecer um pouco estranho. Fiquei sabendo que pinto fica feliz no lixo porque tem onde ciscar. Pois é, agora que você já sabe vai passar a usar mais esse dito popular. Enfim, voltando ao meu avô na praia. Ele ficava preto pretinho e não passava filtro solar. Lembrando que ele nasceu em 1916 e não existia filtro, mas depois ele me dizia que sua pele estava curtida e que ele era preto mesmo. Com 98 anos sua pele estava repleta de pintas gigantes, mas, nenhuma deu trabalho, nem doença para ele ao longo desses anos todos. Realmente o sol era muito amigo de vô.
Pensar em praia é pensar em vô Rosa. Meus pais já os convidaram para viajar juntos e a viagem ficava mais divertida. Vó gostava de escrever nos guardanapos que encontrava pelos restaurantes. Naquela época eles eram grafados e ela coloca a data e o nome das pessoas que estavam no restaurante. Vô gostava de peixe frito, cerveja e uma cachacinha da mineira.
Minha mãe se lembrou de um caso ótimo e escreveu no livro das Bodas de Vinho. Vou transcrever aqui:
Meu sogro tem o apelido de “Rosinha” desde seu nascimento, porque seu pai era o “Doutor Rosa”, médico muito conceituado nesta cidade de Itabira.

Este apelido trouxe muito embaraço para ele, por diversas vezes. Chamado ao telefone da loja Rosa e Felipe, o freguês queria falar com “dona Rosinha” e nada fazia aceitar que “Rosinha” era um homem, casado com a “Tide” de Nova Era.
Algumas pessoas passaram a chamá-lo de “Seu Rosa” à medida que foi envelhecendo e tomando um ar mais sério.
Algumas vezes um amigo passava por perto e exclamava: “olá, Rosinha, e quem passava ao lado olhava com interrogação, que nome para se colocar num senhor???

Mudando para outro fato interessante, num período de férias  que fomos em Guarapari ES/eu, Mauricio, Matilde, nossos três filhos,Henrique, Karina e Alexandre com 2 anos, hospedamos no condomínio Caparaó  onde alugam os apartamentos de quarto e sala, muito simples mas de frente da praia das Castanheiras, no centro da cidade.
Ao lado do prédio havia uma enorme castanheira onde se escondiam na sombra, os jogadores de “bicho”, jogo proibido pelo governo, mas lá era liberado.
Rosinha sempre foi jogador assíduo e todos os dias, ao se levantar,corria para debaixo da árvore para fazer seu joguinho antes de sair para a caminhada na praia.Certo dia eu lhe disse que havia sonhado com alguns números e lembrei de todos, mas o bicheiro não apareceu, e nós, presos sem poder passear.Até que ele decidiu largar aquele vício para la e fomos ao passeio. Voltamos tarde e fomos dormir. No dia seguinte, bem cedo ele foi conferir e tinha dado os mesmos números, ele ficou pensando em tudo que poderia fazer com aquele dinheiro, mas a sorte já havia passado.
Foi só naquele dia, não saiu nem sombra de prêmio.

                    Maria Raquel Penido Rosa- 28.07.2012

Pois é, olha só que sacanagem com meu avô. Justamente no dia que ele não fez a fé dele, os números saíram. Sabe-se lá qual plano Deus tinha pra ele. Acho que foi melhor assim. Só sei que o vício de apostar na sorte não passou nada. A vida inteira meus dois avôs fizeram apostas na casa lotérica.

Acredito que após a morte nosso corpo e alma são devolvidos ao cosmos em forma de energia. Pude sentir meus avós lá em Trancoso. Senti meu avô Arthur nas praias de Porto Seguro. Ele foi convocado na Segunda Guerra Mundial, esteve lá enfrentando o medo e protegendo a costa brasileira.  
Eu parei pra olhar o céu, uma imensidão de estrelas e pensei que eles poderiam estar ali, pois foram estrelas em nossa vida. Luz volta a ser luz. Trevas volta a ser trevas. Dos meus olhos escorreram lágrimas que ao chegarem à minha boca me trouxeram o gostinho do mar. Dentro de nós existe um mar imenso de possibilidade. Eu escuto e vejo os sinais. Choro ao contemplar a imensidão do universo, a grandeza de Deus e o mistério que ronda tudo isso. Só posso ser grata. Eu choro em ver tanta beleza.

E que todas as energias boas que meus avós cultivaram aqui na Terra voltem ao Cosmos e aos seus. Seremos sua eterna família, eterna linhagem! E um dia voltaremos como eles ao universo. 

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