segunda-feira, 14 de setembro de 2015

O casamento e a mulher forte




O casamento é uma longa partida de buraco. Engraçado como um casal como meus avós, que fizeram Bodas de Vinho, 70 anos de casados, se revelavam numa partida de buraco.
Eles demonstravam total companheirismo, pois mesmo vó não estando muito afim ela cedia aos pedidos do maridão.
Brigavam o tempo todo, em silêncio, implicando um com o outro e resmungando palavras pelo canto da boca. Ali passavam horas, o pêndulo do relógio de um lado para o outro. Ela batendo na mesa, ritmado. Ele reclamava de suas cartas e vez ou outra jogava uma no chão ou escondia debaixo do bumbum. Ela gostava de canastra limpa, ele gostava de sujar tudo. De vez em quando uma cervejinha para amenizar os ânimos.
Minha maior declaração de amor por eles era jogar junto, pois eu realmente não gostava. Mas, o melhor era ficar apenas observando, filmando, fotografando. Afinal, em briga de marido e mulher ninguém mete a colher!
Depois de tanta competição, eles recolhiam o baralho e iam juntinhos tomar o chá da noite.
Isso é casamento: em todas as horas estavam unidos.
No meu caso, se eu competir com meu marido a situação pode ficar feia, o ressentimento de uma partida de buraco pode dar vazão a outras embates, e uma reclamação pode puxar milhões de outros lamentos. Ou seja, nunca competimos.
Casamento é assim, aguentar as coisas boas, as lamúrias, as competições diárias, acolher o perdedor e reconhecer o vencedor, sem guardar rancor.
E assim iam eles para a cozinha, ou vó preparava a mesa de lanche lá na sala de TV mesmo.  Depois de tantas horas no combate, tomavam chá, cuidavam um do outro e falavam amenidades, como se nada tivesse acontecido.
Ela pegava as famosas torradas que fazia com o pão em excesso que a vida inteira vô insistia em comprar. Pra quê brigar?
-“Biga não.” Era o lema de vó Tide.
Só porque ele cisma de comprar oito pães para três pessoas? Por isso vó ficou conhecida com a rainha das torradas mais gostosas do mundo. Ela nunca economizava na manteiga! Ela também não economizava no açúcar. A vida tem que ser doce, não é, vó? Por isso sua salada de fruta era bem calórica!
A vida já é tão dura às vezes que o melhor mesmo é tomar chá com torradas bem amanteigadas e depois uma salada de fruta bem açucarada. Isso sim faz bem pra saúde! Faz bem para o coração! Uma mulher que adoça a vida dos filhos e do marido! Uma mulher que não briga por qualquer bobagem! Se quiser competir vá para o mercado de trabalho. A casa dos meus avós nunca foi lugar de brigas e discussões.
Sempre pensei que vó era uma mulher frágil, mas chego à conclusão que a força dela estava aí, nas lutas cotidianas que não travou. Resistiu bravamente a vários embates para não cair numa discussão legítima e não afastar sua família. E em tom de confissão ela me contou no dia da Bodas de Diamante (há 12 anos atrás):
-Vocês acham que foi fácil chegar até aqui. Não foi um mar de rosas. Seu avô era difícil. A mulher tem que saber levar.
Isso aí, vó. No casamento a mulher virtuosa sempre sai vitoriosa.

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