terça-feira, 18 de agosto de 2015

Diálogo com vó




Conversando com vó Tide

- Ai que fome!
Falei ao chegar em casa.
- Mata o homem e come.
Escutei vó Tide falar com aquele tom de recriminação e gargalhada. Desde que ela se mudou pro “andar de cima” eu comecei a conversar com ela através das inúmeras fotos pregadas pela casa. Agora mais do que nunca, obviamente por causa da proximidade do aniversário. Escuto a voz que vem do coração. Aprendi muitas coisas com ela, peguei o jeito dela falar, anotei as gírias, repito na minha mente sua voz, seu jeito, seu olhar e até seu cheirinho dá pra sentir. Dessa forma é como se a enxergasse. Aprendemos com o tempo que “só se vê bem pelos olhos do coração”, pois é isso mesmo, agora a vejo mais do que nunca. Isso acontece quando queremos muito a pessoa perto da gente e lembramos constantemente de tudo que se passou entre nós nessa vida.
Outro dia assisti a um filme lindo com a meninada de férias: Festa no Céu. Os filmes infantis cada dia me surpreendem mais com seus temas fascinantes. A resenha desse filme fala sobre a cultura da morte no México e como eles lidam com isso. Depois que a pessoa morte ou ela vai para a Terra dos Esquecidos, que é muito triste, ou para a Terra dos Lembrados, que é uma festa. Por isso, se queremos que nossos entes queridos e amigos fiquem felizes, temos que estar sempre nos lembrando deles com alegria. Simples assim. Contar suas histórias para as crianças, escrever livros, para que essa memória nunca seja esquecida. Assim, se você não matar uma pessoa no seu coração e na sua lembrança ela estará sempre viva e feliz em uma eterna festa no céu, reencontrando pessoas. Sinto que sou um canal de energias entre meus avós e as pessoas por conta da minha intimidade e da sensibilidade aguçada.
- Vó, olha meu vestido de oncinha!
Mostro coisas pra ela que sei que ela vai gostar. Quando preciso de ajuda, principalmente quando preciso de paciência com meu filho e meu marido, falo com ela:
- Vó, me ajuda. Você teve sete filhos e cuidou tão bem deles. Conseguiu manter a calma, o amor, ser carinhosa, respeitar a diferença entre eles, o jeito de cada um. Não pressionou e não era dada a qualquer tipo de chantagem, dessas que os pais usam pra convencer os filhos.
Resolvi estabelecer um diálogo, pois sei e já comprovei que ela tem muitos bons conselhos a dar. Creio que em 2012 eu escrevi um caderno chamado “Conselhos de vó Tide” e tem cada pérola! Ilustrei com fotos e depois cada um complementava o caderno com uma anotação pessoal, um conselho que relembrava dela. Ela amava mostrar o livreto e toda vez que eu ia visitá-los pegava-o para ler com minha boa entonação. Vô falava:
- Eu gosto quando Karina lê porque ela tem uma voz alta.
Agora mesmo eu olhei o sol lá fora, olhei para minhas pernas brancas e escutei ela me mandar bronzear. Sempre me dizia que meu marido ia gostar de ver as pernas moreninhas. E contava aquela história de que quando era moça em Nova Era tinha as pernas mais bonitas da cidade.
- Vó, você só tem bons conselhos a dar. Vamos continuar nossa conversa para sempre, olhando sempre pelos olhos do coração. Já disse e vou repetir que um dia, vou participar com vocês dessa festa no céu. E quando eu chegar você vai dizer: - ”Chegou Karina para tumultuar o ambiente! Fazer zueira, alegrar e iluminar a casa.”.
Sei que está me escutando, por isso vou dizer sempre:

- Obrigada, vó, por ter tirado meus piolhos com tanto carinho quando era pequena. (E a gente sempre ria desse comentário). E é bom rir sempre com você. Agora deixa eu tomar meu banho e passar aquele talco perfumado. Hoje não posso dormir depois do almoço como você me aconselhou. Tá bom, vó, gelatina e maça. Preciso criar esse hábito! Para pele, né?

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