Conversando com vó Tide
- Ai que fome!
Falei ao chegar em casa.
- Mata o homem e come.
Escutei vó Tide falar com aquele tom de recriminação e
gargalhada. Desde que ela se mudou pro “andar de cima” eu comecei a conversar
com ela através das inúmeras fotos pregadas pela casa. Agora mais do que nunca,
obviamente por causa da proximidade do aniversário. Escuto a voz que vem do
coração. Aprendi muitas coisas com ela, peguei o jeito dela falar, anotei as
gírias, repito na minha mente sua voz, seu jeito, seu olhar e até seu cheirinho
dá pra sentir. Dessa forma é como se a enxergasse. Aprendemos com o tempo que “só
se vê bem pelos olhos do coração”, pois é isso mesmo, agora a vejo mais do que
nunca. Isso acontece quando queremos muito a pessoa perto da gente e lembramos
constantemente de tudo que se passou entre nós nessa vida.
Outro dia assisti a um filme lindo com a meninada de
férias: Festa no Céu. Os filmes infantis cada dia me surpreendem mais com seus
temas fascinantes. A resenha desse filme fala sobre a cultura da morte no
México e como eles lidam com isso. Depois que a pessoa morte ou ela vai para a
Terra dos Esquecidos, que é muito triste, ou para a Terra dos Lembrados, que é
uma festa. Por isso, se queremos que nossos entes queridos e amigos fiquem
felizes, temos que estar sempre nos lembrando deles com alegria. Simples assim.
Contar suas histórias para as crianças, escrever livros, para que essa memória
nunca seja esquecida. Assim, se você não matar uma pessoa no seu coração e na
sua lembrança ela estará sempre viva e feliz em uma eterna festa no céu,
reencontrando pessoas. Sinto que sou um canal de energias entre meus avós e as
pessoas por conta da minha intimidade e da sensibilidade aguçada.
- Vó, olha meu vestido de oncinha!
Mostro coisas pra ela que sei que ela vai gostar. Quando
preciso de ajuda, principalmente quando preciso de paciência com meu filho e
meu marido, falo com ela:
- Vó, me ajuda. Você teve sete filhos e cuidou tão bem
deles. Conseguiu manter a calma, o amor, ser carinhosa, respeitar a diferença
entre eles, o jeito de cada um. Não pressionou e não era dada a qualquer tipo
de chantagem, dessas que os pais usam pra convencer os filhos.
Resolvi estabelecer um diálogo, pois sei e já comprovei
que ela tem muitos bons conselhos a dar. Creio que em 2012 eu escrevi um
caderno chamado “Conselhos de vó Tide” e tem cada pérola! Ilustrei com fotos e
depois cada um complementava o caderno com uma anotação pessoal, um conselho
que relembrava dela. Ela amava mostrar o livreto e toda vez que eu ia visitá-los
pegava-o para ler com minha boa entonação. Vô falava:
- Eu gosto quando Karina lê porque ela tem uma voz alta.
Agora mesmo eu olhei o sol lá fora, olhei para minhas
pernas brancas e escutei ela me mandar bronzear. Sempre me dizia que meu marido
ia gostar de ver as pernas moreninhas. E contava aquela história de que quando
era moça em Nova Era tinha as pernas mais bonitas da cidade.
- Vó, você só tem bons conselhos a dar. Vamos continuar
nossa conversa para sempre, olhando sempre pelos olhos do coração. Já disse e
vou repetir que um dia, vou participar com vocês dessa festa no céu. E quando
eu chegar você vai dizer: - ”Chegou Karina para tumultuar o ambiente! Fazer
zueira, alegrar e iluminar a casa.”.
Sei que está me escutando, por isso vou dizer sempre:
- Obrigada, vó, por ter tirado meus piolhos com tanto
carinho quando era pequena. (E a gente sempre ria desse comentário). E é bom
rir sempre com você. Agora deixa eu tomar meu banho e passar aquele talco
perfumado. Hoje não posso dormir depois do almoço como você me aconselhou. Tá
bom, vó, gelatina e maça. Preciso criar esse hábito! Para pele, né?

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