É engraçado como as pessoas
encaram a vida.
Parece que nada mais importa
além do presente e do futuro.
Divirto-me em frente à
televisão, assistindo aos astronautas planejarem uma estação espacial, uma nova
teoria sobre de onde viemos e o novo hormônio que foi descoberto no corpo
humano.
Sabendo que a tecnologia nos
arma com melhores condições de vida, a modernidade se torna grande. Por isso,
não pensamos muito no passado. Para o momento seria “brega” demais. Não digo o
mais remoto passado, aquele de Adão e Eva ou aquele dos macacos. Digo aquele
século que passou sem que déssemos conta do que aconteceu.
Itabira é uma cidade para
refletirmos arquitetura, costumes, enfim, os cento e cinquenta anos que
passaram sem serem historicamente percebidos.
Um dia me deitei no sofá da
casa de meus avós, entretida com uma coleção de livros do Dostoiésky. Foi
deveras nostálgico o clima que aquela sala me proporcionou.
Desde quando nasci frequento
a casa dos “Rosa” e nunca meus olhos enxergaram tanto o passado. Uma lamparina
pregada na parede e o chapeleiro muito conservado trazia a imagem dos homens de
terno, guarda chuva em punho e as elegantes cartolas. Na parede, um quadro de
Itabira antiga e a foto do meu bisavô, Doutor Rosa. Eu só o conheci assim, em
preto e branco. Puxei mais um rabo de olho para uma plaqueta que fica na
congruência entre a parede e o teto, escrito: Casa Rosa – 1896.
Voltei a me entreter com o
filósofo, mas, aquele pedaço de papel fotográfico ficou lá olhando pra mim. Levantei
e fui dar uma olhada mais de perto, pra ver o que meu bisavô queria tanto
comigo. Os óculos redondos de aro dourado não me permitiram descobrir o que
estava por trás daquele homem sério e compenetrado.
Inusitadamente ele soltou uma
voz grossa.
Não sei até hoje como ele
conseguiu escapar do quadro, transformar suas formas chapadas em arredondadas.
Só sei que fui transportada, transcendida, transviada, ou qualquer outro tipo
de tele transporte para outro lugar.
Ao transpor a porta da Casa
dos “Rosa” com meu bisavô tudo à minha volta estava diferente e eu só
compreendi quando ele falou: “Vamos dar um passeio em Itabira do Matto Dentro”.
O senhor se movimentava sem dificuldade. Sinceramente, eu pensei que depois de
ficar tanto tempo estático ele precisaria lubrificar as juntas como o homem de
lata da história “O mágico de Oz”.
Mas, ele estava em forma.
Aliás, muito mais em forma do que eu, que sequer conseguia montar no cavalo.
De um salto acrobático aquele
homem encaixou-se sem problemas na sela do seu cavalo, enquanto eu fazia
tentativas frustradas. Não há dúvida que nossos antepassados dão um show de
montaria. Perdemos nitidamente esse hábito saudável de contato com os animais.
Assim, no meio de
turbulências “burríferas” eu e meu bisavô começamos a trotar pelas ruas de
pedra de Itabira do Matto Dentro. O sol daquela manhã fazia brilhar as pedras
de minério que calçavam nosso caminho. Íamos em direção à uma montanha que de
onde estávamos dava pra ver.
“Não está com calor?”
Perguntei ao meu bisavô que estava enfurnado num terno escuro. Podia até ser
última moda no século dezenove, mas convenhamos, é quente e desconfortável. Ele
me disse que estava bem e eu duvidei e sugeri que tirasse o casaco. Mas, até
parece que um homem nascido e criado em 1875 pelos tradicionais Antônio José
Rosa e Maria Margarida Rosa iria se despir de sua elegância. Com certeza, havia
um abismo de costumes entre nós. Sabíamos que éramos diferentes. Eu de Marte e
ele de Júpiter. Fiquei com muitas dúvidas sobre a vida dele. Comecei a
organizá-las na minha cabeça e mandá-las feito balas de canhão. Ele ficou
nervoso e disse para que eu parasse com tantas perguntas. Depois ele me pediu
para prestar atenção na história que ele iria me contar. Nossa viagem por
Itabira antiga ficava cada vez mais interessante.
Doutor Rosa tinha um nome,
claro! Ele se chamava Joaquim Pedro Rosa e nasceu no ano de 1875. O pequeno
Joaquim tinha como melhor diversão, dentre todas as suas brincadeiras infantis,
se transformar no Homem das Estrelas. Rolava no chão sujo de minério e depois
corria para o sol. Quando via seu corpo todo brilhar era a glória! Pensava que
era morador da Estrela Minério. Começou os estudos em Itabira e me confessou
ter sido um jovem com muitas aspirações. Os pais de Joaquim tomaram todas as
providências necessárias para ele morar na capital de Minas Gerais e
incrementar seus estudos. Cursou a Faculdade de Farmácia em Ouro Preto. Diploma
na mão e mais um sonho na cabeça, queria mesmo era fazer medicina. Foi para a
Bahia galopando e se matriculou na faculdade de Medicina. Foi colega do também
itabirano, Alexandre Drummond.
Por fim do curso, defendeu a
tese “Mecanismos do Parto” e conseguiu o diploma de médico-cirurgião.
Enfim, Itabira! Ele sempre
esperou por isso, voltar e clinicar. Foi em 1900 quando ele começou a prestar
seus serviços à população.
Ele era um homem muito bom,
tem até um anúncio de jornal da época que destaca em sua publicidade
atendimento gratuito aos pobres de Itabira e região. Nos dias de hoje
precisamos de mais médicos assim como o senhor, Doutor Rosa. Oito anos após sua
formatura, numa de suas viagens como médico, encontrou seu verdadeiro amor e
casou-se em Guanhães com Zulmira Nunes Coelho. Com tanto amor pela profissão e
pela esposa o resultado foi uma bênção de Deus: doze filhos que ele mesmo
trouxe ao mundo com suas mãos de cirurgião. Uma verdadeira prole! A casa vivia
cheia de festas, alegria, cores, meninos, meninas, babás, empregadas. Vida!
Muita vida!
A trilha de terra se
enroscava em volta da montanha. Eu já estava ficando tonta por causa do sol
forte. Será que ele tinha óculos escuros para me emprestar? Continuávamos a
subir, o mato arranhava minhas pernas. Dei conta que deveria parecer uma
meretriz para meu avô, pois estava de short e camiseta. Escândalo! “Bem-te-vi”.
A vasta mata abrigava várias espécies de pássaros e pequenos animais.
Depois de uma parada para
observar os arredores, ele me perguntou se poderia continuar sua história. Deve
ser bom, poder voltar depois de morto e contar sua vida para alguém. Acenei com
a cabeça que sim e mantive a boca fechada pra não atrapalhar.
Multifacetário, ele era
farmacêutico, médico, político, comerciante e colaborador do Jornal “Correio de
Itabira”. Em 1918, o responsável e engajado Joaquim Pedro foi eleito Presidente
da Câmara de Vereadores de Itabira. Pelo partido republicano mineiro foi
candidato a deputado estadual. Ele também investiu no comércio e abriu uma loja
chamada “Rosa & Irmãos”. Muito esperto esse meu bisavô, através dessa loja
ele podia ajudar os filhos que não queriam estudar. Meu avô foi um desses que
trabalhou mais de quarenta anos no empreendimento que posteriormente comprou
dos outros familiares.
Ele ainda achava tempo de se
encontrar com o amigo Brás Martins da Costa para discutirem o que escreveriam
para o jornal.
Eu fiquei “de cara” com toda
coleção de atividades daquele homem antenado com o mundo. Com certeza meu bisa
fazia parte da vanguarda itabirana, quiçá mineira. Eu fazia “ploft, ploft”
junto ao meu burro, já o cavalo era chiquérrimo no seu “pacatá, pacatá”. Para
onde será que estávamos indo? Eu não sabia, mas sentia uma segurança estranha
ao lado daquele meu antepassado.
Nem mesmo na hora que falou
sobre a Gripe Espanhola que assolou Itabira e o mundo, aquele homem esmoreceu.
Manteve o ar sério e a linguagem racional para dizer que perdeu muitos
pacientes para essa praga terrível. As casas se mantinham a portas e janelas
fechadas. “Não havia cura”, disse. Os mortos se amontoavam no cemitério. Muitas
pessoas queridas se foram, dentre eles o irmão, João Severino Rosa. Meu bisavô
se empenhando de todas as formas, galopando com seu cavalo Guarani. Como Dom
Quixote e Sancho Pança enfrentavam os inimigos invisíveis. E ele me contou
sobre seu melhor amigo, o seu corpulento cavalo, Guarani. Juntos eles visitavam
pacientes em Itambé, Santa Maria, Aliança, Carmo, Guanhães, Nova Era, todas as localidades
e vilarejos da região. Lá estavam eles, Doutor Rosa e seu cavalo guarani, a
combater o mal, entravam nos lugares como verdadeiros heróis. Que orgulho!
Minha imaginação flutuava.
Saí daquele mega “flash
back”, minha cabeça girava. Seria o sol quente daquele dia de verão? O quê
estava acontecendo? Fechei os olhos e no meio da minha escuridão esperei
abri-los e perceber que tudo não passou de um sonho maluco. Ao contrário,
percebi que não só meu bisavô voltou dos mortos, mas também seu melhor amigo, o
cavalo Guarani. Que bicho esquisito! Ele parecia entender tudo, olhou para mim,
levantou o rabo e me respondeu com várias bolotas de cocô. Havia algo de muito
familiar na paisagem que avistava, mas só pude ter certeza ao avistar o Pico do
Cauê. Lá estava ele perante meus olhos. A estrela minério. Ria de nervosa e até
meu burro empacou com o susto que levei. Como podia estar vendo uma riqueza
mineral e natural que já virou uma cava gigantesca? A vontade de chorar me
batia forte no peito. A brisa trouxe cheiro de flores e vi um coelho pular na
montanha campestre. “É tarde, é tarde, é tarde até que arde.”
Doutor Rosa me olhou nos
olhos pela primeira vez. Ele já não era tão sério e compenetrado quanto antes.
“Estamos chegando ao fim da viagem, minha querida.”
Peraí, vô, mas e o final da
história?
Por fim, percebi que eu já
sabia o final da história. Meus olhos se encheram de lágrimas. Eu já estava me
afeiçoando e sei que ele não pode ficar. Meu bisavô cumpriu rapidamente sua
missão na terra e morreu aos 69 anos com uma misteriosa doença no fígado. Morreu
em 1944 para jamais ser esquecido.
O sol multiplicava seus raios
por todos os grãos de minério que encontrava. Um clarão tomou conta da
atmosfera. O vento uivou e estalou meu cabelo no ar. O burro pressentiu o
perigo e saiu correndo à galope. Corri contra a tempestade de poeira que
formava um tufão brilhante com partículas de minério. Meus olhos não conseguiam
se abrir e eu queria muito ver meu bisavô pela última vez. Nunca vi coisa
igual, mágica, violenta, drástica, natural!
Tentando ver alguma coisa, percebi que eu mais parecia a Dorothy perdida
num tufão de sonhos. Casas antigas, cavalos, antepassados, lojas, carros,
vestidos antigos, cartolas, coelhos e sabiás, tudo voava junto na nuvem
gigante. A morte é apenas uma letra dentre milhares de palavras que podemos
contar da nossa história. Doutor Rosa não me acenou de longe e entrou nesse
tufão do além-mundo que assolou meu dia e levou tudo de volta ao passado. Esse
encontro foi surpreendente. Meu bisavô não é mais apenas uma fotografia na
parede. Ele sempre estará vivo em nossas vidas com sua história cheia de bons
exemplos: estudos, persistência, atitude, bondade, caridade, amor à família e
muito empreendedorismo. Mas, ainda assim acredito que seu melhor papel foi o de
pai.
Quando o vento parou e a
poeira baixou, pude ver que Itabira voltava a ser como era antes. Voltava a ser
vista no presente, o que é fácil. Difícil mesmo é olhar para trás e descobrir
como era a vida de nossos antepassados.
A brisa suave passou a mão em
meu rosto, fazendo-me acordar para essa nova vida. Agora é enfrentar o futuro
com muita coragem.

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